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Como fazer um refrão: o que é, 8 técnicas com áudio e teste

Publicado · Atualizado

Ouça a estrofe decolar para o refrão e escreva o seu: 8 técnicas, um exemplo do rascunho à versão final e um teste de 8 perguntas para sua música.

Compositor trabalhando em um refrão com microfone, teclado e caderno em um home studio

O refrão é a parte da música que concentra a ideia central e volta com a mesma letra toda vez, para quem ouve aprender e cantar junto. Para fazer um refrão, resuma a música em uma frase, transforme essa frase em um título curto e faça o refrão contrastar com a estrofe em quatro frentes: melodia (mais aguda, com notas mais longas), ritmo (menos sílabas, mais respiro), harmonia (muitas vezes começando no acorde da tônica) e letra (uma conclusão em vez de uma cena). Coloque o título onde ele possa voltar: no primeiro verso, no último ou nos dois. Depois teste: se alguém cantarolar o refrão depois de ouvir uma vez só, você está perto.

Logo abaixo você pode ouvir a decolagem da estrofe para o refrão, testar oito técnicas, acompanhar um refrão do rascunho à versão final e colocar o seu à prova em cima de um loop de acordes gratuito. Aqui, estrofe é a seção (o verse do inglês) e verso, cada linha.

Ouça a decolagem: três exemplos de áudio

São esboços didáticos sintetizados no seu navegador, não produções prontas. Cada um começa com um compasso de contagem.

1. Da estrofe ao refrão: a decolagem em 0:12

Estrofe → refrão · Am–F–C–G → C–G–Am–F · 96 BPM

A estrofe (0:02–0:12) tem acordes suaves, nada de bateria e uma melodia grave e apertada: 22 notas curtas em quatro compassos. Em 0:12, três coisas mudam ao mesmo tempo:

  • Registro mais agudo. O refrão começa no sol e salta para um mi agudo perto de 0:14. Todas as notas do refrão ficam acima da mais aguda da estrofe.
  • Notas mais longas. Oito notas em quatro compassos, quase todas de dois tempos ou mais: dá para segurar uma palavra.
  • A bateria entra. A energia sobe; o andamento não muda.

A harmonia também ajuda: a estrofe começa em Am e o refrão em C, a tônica. São os mesmos quatro acordes em outra ordem, e começar em C soa como chegada. O lá final, sustentado a partir de 0:20, deixa a porta aberta para a próxima estrofe. Quais dessas mudanças o seu refrão já tem?

2. Um gancho com o título: uma frase que volta

Gancho com o título · C–G–Am–F · 100 BPM

Uma frase de dois compassos se repete quatro vezes, a partir de 0:02, 0:07, 0:12 e 0:17. Todo compasso tem o mesmo ritmo: uma nota, outra mais rápida, uma nota segurada que atravessa o meio do compasso e uma última que puxa para o compasso seguinte. O primeiro compasso sobe dó–dó–ré e cai no sol; o segundo responde com si–si–dó–ré.

Essa frase é um gancho (o hook); o refrão é a seção inteira construída em volta dele. Cante “chega mais” no primeiro compasso: “che-” na primeira nota, “-ga” na rápida, “mais” segurado no meio e a última nota puxando para o verso seguinte. Quando o título e o gancho são as mesmas palavras, o refrão faz dois trabalhos de uma vez, e é aí que ele vira chiclete. Como criar um gancho musical explica riffs, motivos e os outros tipos.

3. Uma progressão típica de refrão: I–V–vi–IV

I–V–vi–IV · C–G–Am–F · 96 BPM

Teclado, baixo e bateria pop. Os acordes mudam em 0:02 (C), 0:05 (G), 0:07 (Am) e 0:10 (F), e o loop recomeça em 0:12. Começa na tônica, passa por Am e pousa em F, que leva de volta para C: estável, mas sempre andando, exatamente o que um refrão pede. “Let It Be”, dos Beatles, é construída sobre esses quatro acordes, assim como incontáveis refrões pop. Progressões de acordes para compor compara essa sequência com outros dez loops.

8 técnicas para escrever um refrão

Os bons refrões costumam combinar três ou quatro destas: contraste, um título bem colocado, repetição e um ponto alto.

1. Contraste com a estrofe: extensão, ritmo e densidade

Mude pelo menos duas destas coisas em relação à estrofe:

  • Extensão: suba a melodia, de uma terça a uma quinta acima de onde a estrofe fica.
  • Ritmo: se a estrofe anda em notas rápidas e regulares, dê ao refrão notas longas, uma sílaba segurada ou uma pausa.
  • Densidade: menos palavras por verso. Um verso de estrofe pode ter de 10 a 16 sílabas; um de refrão, muitas vezes de 2 a 7.

Leia estes dois versos em voz alta, no mesmo pulso:

Seu bilhete voou pra debaixo da geladeira,

Fica aí.

O primeiro corre; o segundo para e abre espaço para uma nota longa. O contador de sílabas coloca números nessa diferença, com ou sem sinalefa (um hífen marca a divisão do jeito que você canta e palavra=N fixa a contagem).

2. Coloque o título onde ele possa voltar

PosiçãoComo soaUse quando
Primeiro versoO título chega no momento da decolagemO título é curto e direto
Último versoO refrão caminha até o título e pousa neleO título é uma conclusão ou uma virada
Primeiro e últimoO título emoldura o refrão e soa duas vezesVocê quer que ele grude de qualquer jeito

O mesmo título como moldura:

Chega mais,
a noite ainda nem começou,
tem lugar do meu lado,
chega mais.

Enterrar o título no meio do verso é o jeito mais comum de perdê-lo. Na dúvida, cante as três posições e fique com a que deixa o título numa nota longa.

3. Repita com variação

A repetição é o que faz um refrão ser aprendido, mas repetir sem mudar nada achata rápido. Mantenha a letra e mude um detalhe na última passada: uma palavra a mais, outro final, uma nota mais alta.

Chega mais,
chega mais,
a roda tá aberta, ninguém vai reparar,
chega mais perto de mim.

“Perto de mim” deixa o convite pessoal e dá à melodia um lugar novo para terminar. Numa música completa, guarde esse tipo de mudança para o último verso do refrão final.

4. Construa um ponto alto na melodia

Um refrão costuma ter uma única nota mais alta, e onde ela cai importa mais do que a altura. Coloque essa nota na palavra mais importante e não a gaste na estrofe; no exemplo 1, ela chega perto de 0:14. Vogais abertas (a, é, ó) seguram bem no agudo e o i e o u se estreitam: em “chega mais”, o agudo fica melhor em “mais” do que ficaria num “vi” ou num “sul”. O guia de melodia aprofunda contorno, graus conjuntos e saltos.

5. Dê ao refrão um gancho rítmico

Só o ritmo já pode fazer um refrão grudar. Comece uma frase no contratempo, segure uma nota que atravesse o meio do compasso, como faz o gancho com o título, ou use uma repetição rítmica como “de novo, de novo”. Batuque na mesa o ritmo da estrofe e depois o do refrão: se de olhos fechados você não distingue um do outro, mude o refrão.

6. Faça a harmonia subir: comece no I depois de uma estrofe no vi

Você não precisa de acordes novos para o refrão subir. No exemplo 1, a estrofe toca Am–F–C–G (vi–IV–I–V) e o refrão, C–G–Am–F (I–V–vi–IV): a estrofe começa longe da tônica, o refrão na tônica, e essa chegada faz parte da decolagem.

Ouça no player de acordes gratuito: coloque em loop a ordem da estrofe sem bateria e depois a ordem do refrão com bateria pop. Se a sua estrofe já começa no I, experimente começar o refrão no IV (F, em C) para uma decolagem mais suave.

7. Mantenha a ideia da letra simples

A estrofe carrega detalhes, nomes e lugares; o refrão, uma ideia só, que dá para dizer de uma vez. Precisa de dois “e” para resumir? Tem ideia demais.

  • Ideias demais: “Tô com saudade, com raiva e, no fundo, aliviada.”
  • Uma ideia: “No fundo, que alívio.”

Simples não é vago: “no fundo, que alívio” é uma confissão que qualquer pessoa entende. Deixe as provas, as mensagens sem resposta e o moletom que ficou no armário, para a estrofe.

8. Escreva um verso de resposta

Um verso ganha força quando o seguinte responde, vira do avesso ou contradiz, como pergunta e resposta.

Apaguei suas fotos.
Sei todas de cor.

O primeiro verso é o que se afirma; o segundo, a verdade. Cante a resposta mais grave ou mais curta que a afirmação, para o par soar como pergunta e réplica.

Exemplo comentado: de uma frase a um refrão

A ideia em uma frase: ela jura que hoje não vai ligar para o ex e finge que não se importa. O título sai dela: “Hoje eu não ligo”. Cinco sílabas cantadas, uma frase que todo mundo fala e um duplo sentido embutido: não ligar é não telefonar e também não se importar.

Primeiro rascunho

Prometi pra mim mesma que hoje eu ia ficar bem,
que não ia pensar em você nem mandar mensagem,
mas o celular tá sempre na minha mão
e eu sinto tanta falta de nós dois.

O que não funciona:

  • O título não aparece: nada diz a quem ouve o que guardar.
  • Os versos têm de 10 a 13 sílabas cantadas, densidade de estrofe. Não sobra espaço para notas longas, então não há decolagem.
  • A letra explica sentimentos (“sinto tanta falta”) em vez de mostrar um gesto.
  • Não há rima nem repetição: nada volta para o ouvido se agarrar.

Versão revisada

Hoje eu não ligo,
nem pra você, nem pro que ficou.
Celular virado em cima da mesa,
som bem alto, e pronto, acabou.
Hoje eu não ligo…
Mentira: eu ligo.

Por que funciona:

  • Lugar do título: “Hoje eu não ligo” abre o refrão e volta no quinto verso.
  • Contraste: os versos do título são curtos, então a melodia pode segurar o “não” numa nota longa e alta, coisa que a estrofe nunca faz.
  • Uma ideia: ela finge que não se importa. A história fica na primeira estrofe.
  • Gesto em vez de explicação: o celular virado e o som alto mostram o esforço sem dar nome à saudade.
  • Repetição com variação: “nem pra você, nem pro que ficou” repete a estrutura dentro do verso.
  • Verso de resposta: “Mentira: eu ligo” vira o título do avesso com os dois sentidos: ela se importa, e provavelmente vai ligar.
  • Som: “ficou” e “acabou” rimam em “ou”, uma terminação tônica que segura bem uma nota longa.

Cante as duas versões sobre o loop I–V–vi–IV a 100 BPM. O rascunho atropela e soa como uma segunda estrofe; a versão revisada deixa respiro depois de cada “ligo”, e o loop preenche.

Teste o seu refrão: 8 perguntas

Grave a estrofe e o refrão em sequência, espere um dia se puder e responda com sinceridade.

  1. Alguém consegue cantar depois de ouvir uma vez? Mostre para um amigo e peça para ele cantarolar.
  2. Ele diz o título, num lugar de onde possa voltar?
  3. Contrasta com a estrofe em pelo menos duas frentes: extensão, ritmo, harmonia ou letra?
  4. A nota mais alta ou mais longa cai na palavra mais importante?
  5. Você consegue dizer em uma frase o que ele significa?
  6. Alguma coisa se repete, e a última repetição acrescenta ou muda algo?
  7. Você consegue cantar a plena voz sem forçar e com espaço para respirar?
  8. Ele significa mais depois da segunda estrofe do que depois da primeira?

Um “não” na pergunta 1 ou na 3 é o mais grave: resolva isso antes de lapidar palavras.

Quando o refrão não funciona

SintomaCausa provávelTente isto
Não decolaMesma extensão e densidade da estrofeSuba o ponto alto de uma terça a uma quinta e corte as sílabas pela metade
Ninguém lembraTítulo enterrado no meio do verso, nada se repeteLeve o título para o primeiro ou o último verso e repita
Parece uma estrofe mais altaSó o arranjo mudaMude o ritmo da melodia: notas longas, uma sílaba segurada
É difícil de cantarAgudo demais ou consoantes em notas longasBaixe o tom e coloque vogais abertas nas notas longas

Se o refrão é bom mas chega sem força, olhe o que vem antes: um pré-refrão acumula a tensão que o refrão libera. Se o último refrão soa como repeteco, uma ponte pode mudar o que ele significa. O guia de estrutura de uma música mostra como as seções se encaixam, e como escrever uma música cobre o processo inteiro.

Exercício: escreva um refrão sobre I–V–vi–IV em 20 minutos

Você precisa de fones de ouvido e do player de acordes gratuito, que funciona no navegador, sem conta.

  1. Escreva a frase e o título: uma frase para a ideia e um título de duas a cinco palavras.
  2. Grave primeiro um verso de estrofe sobre o loop da estrofe, grave e quase falado, para ter com o que comparar.
  3. Coloque o refrão em loop. Abra o player com I–V–vi–IV já carregado (dó maior, 100 BPM, bateria pop) e cante o título no primeiro compasso com notas longas, mais agudo que a estrofe.
  4. Acrescente um verso de resposta sobre G e Am e volte ao título sobre F com uma pequena mudança.
  5. Digite a letra no campo de letra do player para ficar com ela na frente.
  6. Grave um take com os fones, ouça junto com o loop e baixe o arquivo.
  7. Compare o take da estrofe com o do refrão e passe pelas oito perguntas. Não decolou? Mude uma coisa só (a nota mais alta, a duração das notas ou o acorde de início) e grave de novo.

Prefere partir de uma melodia? A prática de melodia do guia de letras tem quatro melodias, acordes opcionais e um botão para gravar. Se quiser um caminho guiado, o curso grátis de composição tem uma aula inteira sobre o refrão e o gancho.

Onde a Zoundroom entra

Um refrão se decide comparando: o rascunho contra a versão revisada, cada um ouvido logo depois da estrofe. Essa comparação desmorona quando a letra está num caderno, os takes na pasta de downloads e os acordes só na sua cabeça. Na Zoundroom, crie um projeto para a música e guarde numa mesma nota a estrofe, as duas versões do refrão e os acordes em cima de cada verso. Grave cada take dentro dessa nota, logo abaixo da versão a que ele pertence (o áudio entra onde está o cursor), para ler e ouvir as versões lado a lado; os takes que você baixou do player de acordes podem ser importados para o projeto e inseridos na mesma nota. Quando uma versão ganhar, escreva embaixo uma linha dizendo por quê. Comece pelas duas versões do exercício: cole as duas numa nota e grave a versão revisada embaixo do rascunho. Veja como as notas e letras funcionam junto com o áudio.

Perguntas frequentes

Qual deve ser a duração de um refrão?

Oito compassos é o tamanho mais comum no pop: cerca de 20 segundos a 100 BPM, normalmente de quatro a seis versos. Quatro compassos funcionam para um gancho repetido; dezesseis costumam ser um bloco de oito tocado duas vezes.

Qual a diferença entre refrão, gancho e linha-refrão?

O refrão é a seção inteira que volta com a mesma letra e a mesma melodia. O gancho (hook) é a ideia curta que fica na memória, uma frase cantada, um riff ou um ritmo, dentro do refrão ou fora dele; no rap e no trap, “hook” muitas vezes é o nome do próprio refrão. A linha-refrão (o refrain do inglês) é um único verso repetido, muitas vezes o título, no começo ou no fim de cada estrofe, em músicas sem refrão separado. Como criar um gancho musical compara esses termos numa tabela.

O refrão precisa se repetir igualzinho toda vez?

Normalmente a letra e a melodia continuam iguais, porque é assim que as pessoas aprendem. A mudança vem do que está em volta: as estrofes fazem as mesmas palavras pesarem mais, o arranjo cresce e o último refrão pode dobrar ou mudar o verso final. Se você reescreve a letra toda vez, ele vira mais uma estrofe.

Uma música pode não ter refrão?

Pode. Muitos standards seguem a forma AABA, em que um verso com o título, no começo ou no fim de cada parte A, faz o papel do refrão, e muitas canções narrativas seguem estrofe após estrofe sem voltar a uma seção fixa. Aí o gancho mora nesse verso, num riff ou num ritmo. O guia de estrutura de uma música mostra as formas mais comuns.

Fontes